
Diferente.
Essa é a definição do livro A via crucis do corpo de Clarice Lispector.
Escrito em 1974, com 13 contos mais uma “Explicação”, Clarice surpreende com a linguagem rápida e leve. Feito em apenas um final de semana, o livro possui apenas um personagem: o corpo.
Ele deseja, chora, reflete, espera e sofre. Eles são distintos, enigmáticos e reais.
Eis alguns deles: o da freira que deseja o corpo de um homem em “Melhor do que arder”, da senhora que implora pelo corpo jovem de um menino em “Mais vai chover”, das duas mulheres que se juntam para satisfazer um machista em “O corpo” e o corpo que desafia e recebe a “benção” divina em “Via crucis”, conto que intitula o livro.
As histórias tratam o sexo com uma pequena indiferença e pela época que foi lançado, obteve uma crítica não muito boa, rebaixando a escritora e julgando o livro como “uma obra menor”.
Feito sob encomenda, não é de longe, a melhor produção de Clarice realmente, mas vale a pena ler pela reflexão que os escritos da autora sempre despertam no leitor. Ao ler, não só pensamento é imediato, mas o corpo também entra na história. Sai o corpo-leitor e entra o corpo-personagem.
Em A via crucis do corpo, seu corpo se cansa de tanto ler.

Um trecho do conto "O corpo":
"Xavier era um homem truculento e sangüíneo. Muito forte esse homem. Adorava tangos. Foi ver O último tango em Paris e excitou-se terrivelmente. Não compreendeu o filme: achava que se tratava de filme de sexo. Não descobriu que aquela era a história de um homem desesperado. Na noite em que viu O último tango em Paris foram os três para a cama: Xavier, Carmem e Beatriz. Todo o mundo sabia que Xavier era bígamo: vivia com duas mulheres. Cada noite era uma. Às vezes duas vezes por noite. A que sobrava ficava assistindo. Uma não tinha ciúme da outra."

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